Resenha “Janela da Alma”

O documentário “Janela da Alma” dos diretores João Jardim e Walter Carvalho, foi lançado nacionalmente em 2001. Conta com vários depoimentos de artistas, como José Saramago, Hermeto Pascoal, Wim Wenders, sobre os problemas de visão, desde o uso de óculos até a cegueira total. Há uma intercalação de cenas entre as entrevistas que simulam, através do desfoque da câmera, como seria ver o mundo pelos olhos de alguém que possui algum tipo de alteração na visão.

hermeto

Apesar do tema central do documentário ser a deficiência visual, ao contrário de outras obras cinematográficas já produzidas, “Janela da Alma” não trata esse problema como um limitador, como algo que vá impedir alguém de fazer coisas que envolvem o campo da visão, por exemplo o caso do fotógrafo cego Eugen Bavcar. O ponto principal da obra talvez seja fazer essa associação de histórias e depoimentos, onde falou-se muito no decorrer do filme da cegueira imaginativa, a cegueira dos sentidos. Por tanto, ao mostrar os casos vitoriosos de pessoas deficientes visuais nas mais diversas áreas, contrapõem-se à situação atual da grande massa de ver uma realidade construída, que obviamente não é a realidade verdadeira. Sobre essa condição, Saramago comenta: “As próprias imagens que nos mostram a realidade estão de uma maneira que substituem a realidade, nós estamos num mundo que chamamos audiovisual, estamos efetivamente a repetir a situação de pessoas aprisionadas na caverna de Platão a olhar em frente, vendo sombras e acreditando que estas sombras são a realidade. Foi preciso passar todos estes séculos para que a Caverna de Platão aparecesse finalmente num momento da história da humanidade, que é hoje. E vai ser assim cada vez mais.”. A deficiência física é algo ruim, mas que pode ser superado, no entanto mudar o pensamento das pessoas é com certeza algo muito mais difícil de se fazer. Algo que no filme é muito bem comentado pelos entrevistados, é o fato de vivermos em um mundo onde a maioria das pessoas não são livres em suas próprias mentes, vivem presas à modelos prontos de histórias, de contos, e ainda buscam cada vez mais coisas que sejam fáceis de se entender, coisas óbvias, mastigadas.

“Janela da Alma” é uma daquelas obras que estimulam a força para ultrapassar os obstáculos da vida. Também promove uma discussão que é muito importante nos dias de hoje e gera um questionamento coletivo: afinal o que é ser cego? O que é não ver a realidade? E bem nesse ponto, os entrevistados trazem a resposta: a pior deficiência é a inibição da imaginação. Dentro de nossas cabeças, mesmo cegos, poderíamos criar e imaginar o mundo como quisermos, teríamos uma mente sem barreiras para o pensamento.

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